segunda-feira, 19 de junho de 2017

Uma viagem ao Mosteiro do Vale do Silêncio


Integrado no programa da Feira de Tradições que decorreu em Lorvão de 14 a 18 de Junho, foi apresentado, no dia 17 à tarde, o livro “No Mosteiro do Vale do Silêncio” da autoria de Sónia Marques Carvão, editado pelo Município de Penacova. Na sessão de lançamento esteve presente Humberto Oliveira, Presidente da Câmara, Fernanda Veiga, Vereadora da Cultura, Rui Baptista, Presidente da Junta de Lorvão e José Pisco, Guia do Mosteiro.
Depois de muita bibliografia de carácter historiográfico sobre Lorvão, surge agora “este pequeno romance” que “pretende dar a conhecer a presença dos beneditinos nesta região e despertar interesse pelo conhecimento da sua história em todos os âmbitos da sua expulsão”, “sensibilizando para uma época e para um Mosteiro “, conforme se pode ler nas páginas introdutórias. “Sem entrar em detalhes de actos históricos, mas recorrendo a alguns deles para desenvolver o romance – que é disso que se trata - foram lidas algumas obras para nos inteirarmos de alguns aspectos importantes” – salienta também a autora.


O romance tem como personagens principais um jovem monge, Bernardo, a jovem Clara, uma rapariga do “povoamento” e o Abade Lucas. Trata-se de uma viagem no tempo. Viagem ao passado, envolta numa dinâmica de regresso ao futuro. É que, depois de muitos séculos, o Mosteiro de Lorvão, vê regressar os Beneditinos, dando assim, vida e dinâmica aos espaços que, com a saída do hospital psiquiátrico, se encontravam à espera de uma utilização condigna.
“Um clarão como se fosse um relâmpago bateu no grupo e no círculo ao mesmo tempo. Alguns bordados de algumas aves foram transformados em penas no momento em que a viragem para o futuro se deu. Todos juntos chegaram ao cimo das escadas do mosteiro actual.”
Claro que todo este processo gerou alguma perplexidade na pacata vila.
“Vem ali outra pessoa! - exclamou o monge Antão quando um rapaz se dirigiu à porta da igreja do mosteiro.
- Boa tarde! – sou o guia deste mosteiro, quem são vocês pelo vosso traje? – perguntou o guia do mosteiro um pouco espantado.
- Somos os beneditinos deste mosteiro – respondeu o Abade Lucas. (…)
- Mas os beneditinos que estiveram neste mosteiro estiveram no século XII. Não podem ser vocês! – exclamou o guia.
- Nós somos os beneditinos que estiveram neste mosteiro no passado, só que fizemos uma viagem ao futuro. Estamos aqui porque estávamos no passado que era nosso presente e quisemos viajar ao seu presente, para nós era futuro que agora também é presente. Íamos ser expulsos. -disse o monge Bernardo…”
No entanto o fulcro do romance é a relação amorosa entre Bernardo e Clara (que nessa viagem ao futuro acabam por casar em 2016 na igreja de Lorvão). Mas voltando aos tempos medievais, tudo começou quando o monge e a jovem aldeã deram o primeiro beijo:
“Nesse momento, Clara não esperou por mais nada e beijou-o. O jovem monge esqueceu-se que era monge e aquele momento configurou-lhe o mundo como uma corrente que corre no leito profundo.”
E mais adiante, encontramos a seguinte passagem:
“- Vou copiar o códice do livro das Aves o mais rápido possível, tenho algo em mente. [diz Bernardo]
- O que tens em mente?- perguntou Clara.
- Direi, mas não hoje. – respondeu e foi para a sua tarefa.
Enquanto isso, os irmãos perguntaram:
- Que relação tens com o jovem monge, Clara?”
Como lidar com tudo isto?
O romance tenta explicar, e prepare-se o leitor para uma leitura mais demorada pois vai encontrar passagens como esta:
“Como poderia existir sensorialidade sem materialidade? Para os beneditinos a sensorialidade podia ser o avesso que seria o direito. Noutro sentido, e esta sensibilidade era levada pela transcendência, a fim de ser visto o invisível ou aquilo que está naquilo que o outro não vê, poderia existir sensorialidade sem materialidade …”
O livro tece também longas considerações sobre a regra de S. Bento, aborda Teologia e Filosofia. A dado passo, imagine-se, Clara recebe uma lição de filosofia:
“Nem um nem outro responderam e o jovem monge preferiu explicar a Clara o que era a dialética de Pedro Abelardo…”.

Uma obra que certamente vai cumprir os seus objectivos: cativar (e desafiar) o leitor, promover um maior conhecimento e sensibilidade sobre o Mosteiro de Lorvão, cuja história, não se escreve apenas no feminino, mas nos remete também para a acção dos monges negros, isto é, dos monges beneditinos que estiveram na origem do cenóbio laurbanense.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Os monges negros de Lorvão: sombras e realidade

Que me desculpe o Professor Nelson Correia Borges por usar parte do título da sua obra magistral (tese de doutoramento)  "Arte Monástica em Lorvão: Sombras e Realidade".
Em 27 de Maio publicámos na página do Facebook associada a este blogue um pequeno apontamento sobre uma iluminura alusiva à criação de Eva, proveniente do  scriptorium laurbanense . Foi numa tese de Regina Neto que encontrámos, não só essa referência, como também inúmeras páginas dedicadas aos monges de Lorvão. Sobre Lorvão muito se publicou já. Vai agora ser lançado um livro cuja acção tem lugar "No Mosteiro do Vale do Silêncio". Segundo a autora, Sónia Marques Carvão, trata-se de um "romance sobre os beneditinos, ficcionado, mas baseado numa investigação e leitura da Regra de S. Bento entre outras obras e em alguns factos históricos."
A dissertação de mestrado, acima referida (leia AQUI) que nos chega da Universidade de S. Paulo apresenta-nos alguns dados que complementam os estudos feitos em Portugal e nos podem ajudar também, neste momento, a compreender as questões históricas para as quais o livro (que será apresentado no próximo sábado em Lorvão)  nos vai remeter.
Escreve Regina Neto que "Lorvão foi um mosteiro considerado rico para a época, em especial para o século XII". Os seus ocupantes terão sido, assim, "expoentes dos maiores protagonistas da região de Coimbra na tarefa de valorização económica do território e na reorganização da diocese". ricos monges possuíam uma longa tradição de autonomia" e acrescenta que "a documentação do fim do séc XI evidencia a aceitação de monges de todas as origens sociais e a existência de comunidades numerosas".  A revista Munda, publicou em 1987 um artigo que suscitou algumas dúvidas sobre a questão da regra seguida: cf. Schedel, T. "A saída dos monges negros do Mosteiro de Lorvão". Este artigo, é mencionado por Regina Neto, recordando que "a bibliografia mais recente aponta dúvidas quanto à observância da ordem beneditina no mosteiro até ao século XII sem, no entanto, fornecer maiores detalhes".  Por isso, escreve que "tendo provavelmente  adoptado a Regra de S. Bento em 1085 o rico mosteiro foi doado à Sé de Coimbra, em 1109." A passagem suscitou protestos dos monges que apenas recuperaram a independência em 1116. Começava assim uma certa "guerrilha" que culminou com a sua "expulsão" quando "foram envolvidos, no início do séc XIII, numa séria contenda com a coroa e com o bispo de Coimbra que os acusou de descalabros materiais e espirituais".



Existe um manuscrito da Regra de S. Bento, pertencente ao Mosteiro de Lorvão, datado de 1546, que ainda recentemente foi alvo de análise codicológica. (ver aqui).

SABER +  sobre Lorvão e a Regra de S. Bento
(Carvalho, S. / Calhindro, F. - Do Scriptorum Medieval às Comunidades Virtuais: Análise Codicológica da Regra de S. Bento do Mosteiro de Lorvão)

"A Regra de S. Bento foi escrita por S. Bento de Núrsia, na Abadia de Monte Cassino, no século VI, e começou a divulgar-se após a sua destruição em 580 pelos lombardos. A introdução da Regra na Península Ibérica está associada ao Concílio de Coiança de 1050, concretamente com a chegada dos primeiros monges de Cluny (1085-1095). Até esta data os monges ocidentais seguiam um sistema designado de Regula Mixta, não apresentado necessariamente um texto único. (BORGES, 2001, 77).
A primeira menção à observância beneditina, em Portugal, surge no mosteiro de Vilela, em 1086. Só em 1110 encontramos documentação referente à Regra Beneditina em Lorvão, nomeadamente no testamento de Zuleiman Raupariz. (BORGES, 2001, 82)
“A Regra Beneditina, enquanto norma, não pode considerar-se um texto intocável […] A sua validade na vida monástica não está em ser um texto de cariz inspirado ou revelado, mas em ser um texto lido e relido, interpretado e comentado, adaptado e actualizado”(DIAS, 2002, 10) e é neste sentido que devemos divulgá-la.

O espírito da Regra de São Bento funda a vidamonástica em três mandamentos essenciais: obediência,silêncio e humildade, cuja súmula é o tradicional ora etlabora, ainda que numa adaptação tardia.
Devido ao seu carácter pragmático e à sua flexibilidade é considerada a “Regra das Regras” pela Igreja Católica. Os mosteiros beneditinos tornaram-se então autênticos centros culturais e desempenharam um papel decisivo na história da civilização ocidental. A sua importância é
inegável, tanto para o monaquismo, como para as mentalidades de uma forma geral (DIAS, 2002,10).
A Regra suscita algumas querelas entre os estudiosos, uma vez que a sua fidelidade é questionada, por não ter sido encontrado o seu pretenso autógrafo, havendo assim suposições sobre o códice que mais se aproxima do texto original. Hoje pensa-se que Hatton 48 de Oxford será o códice mais antigo, datado dos princípios do século VIII, embora o mais autorizado seja o manuscrito Sangallensis 914 do século IX. (DIAS, 2002, 13)"
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BORGES, Nelson, C. – Arte Monástica em Lorvão: Sombras e Realidade, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2001
DIAS, Geraldo J.A. Coelho – Regra de S. Bento, Norma de Vida Monástica: sua problemática moderna e edições em Português. “Rctissima norma vitae”, RB.73,13. [Em linha]. Revista da Faculdade de Letras HISTÓRIA. Porto: III Série, vol.3, 2002, pp.9-48 [Consult. 8 de Dezembro de 2010] Disponível em www: http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2278.pdf

Outros links:

Lorvão, um mosteiro e um lugar

Um mosteiro e um lugar: Lorvão nos finais do séc. XIII


O mosteiro de Lorvão: ainda a saída dos monges e a entrada das freiras

Arte monástica em Lorvão : sombras e realidade : das origens a 1737

Regra de S. Bento
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2278.pdf

VIDA QUOTIDIANA DAS MONJAS NO MOSTEIRO MEDIEVAL - CAP I EXPLUSÃO DOS MONGES DE LORVÃO, ACUSAÇÃO, DEFESA, PRONÚNCIA

sábado, 10 de junho de 2017

Cem anos de turismo em Penacova...

Turismo... um tema recorrente em Penacova. Páginas e páginas que ao longo do século vinte (e nestes inícios do segundo milénio) vêm sendo escritas na imprensa local. Muitas ideias, muitas opiniões, e o eterno lamento e atirar de culpas perante as escassas concretizações  no sentido de  aproveitar o grande potencial natural e cultural da vila e do concelho. Ao longo dos tempos fomos vivendo momentos de esperança num futuro mais "progressivo".  No entanto,  logo a seguir,  veio o desalento porque afinal tudo continuava na mesma. 
Este conflito não é exclusivo de Penacova nem do tema do Turismo. É verdade. Mas seria curioso analisar tudo o que nos últimos cem anos, incluindo a semana que termina, se foi dizendo e escrevendo sobre o malfadado desenvolvimento turístico de Penacova.
Apenas a título de exemplo, deixamos um texto do grande arista e amigo de Penacova, Manuel de Oliveira Cabral, publicado no Notícias de Penacova há 70 anos:


sexta-feira, 28 de abril de 2017

Cartas brasileiras: Cupim subterrâneo ou o quê?

A coisa aqui para o nosso lado anda feia. As notícias ruins já devem ter batido por aí. Há um clima de vergonha nacional, de revolta mesmo, todo mundo virou suspeito, uma deslavada roubalheira envolvendo grandes empresas e nomes graúdos da política brasileira.
Recorro a um texto meu para ilustrar a situação.
Um amigo levou um susto quando viu túneis compridos na parede da dispensa do apartamento, pareciam feitos de terra. Curioso e com receio - sabe lá Deus o quê seria aquilo - derrubou um pedaço do túnel aparando com uma folha de jornal. Ao firmar bem a vista pôde ver uns bichinhos brancos, que se não fossem as perninhas, diria que seriam vermes. Sentindo-se atacado, tratou de chamar um especialista, uma caça-pragas.
O entendido explicou que os bichinhos eram cupins subterrâneos, insetos que atacam componentes de madeira e outros materiais; os túneis servem como proteção contra a luz e predadores. Os loucos por madeira, ou seja, pela celulose, montam suas colônias debaixo do solo, em base árvores, sob construções, daí a dificuldade para localizá-las. Das colônias os “operários” se dispersam pela edificação e vão de um apartamento para outro, através dos espaços vazios entre tubulações e juntas dilatação. Assim, não adianta pulverizar apenas uma área atacada, isso vai apenas espantá-los, fazendo com que se fujam para outro local. É preciso encarar o problema com um mal coletivo, exige trabalho demorado e requer constante atenção.
Por que a Presidente Dilma não combate os cupins de órgãos governamentais como se combate cupim subterrâneo? São espécies parecidas, basta que se lembre: tratamento no todo, faxina geral, não adianta tentar combater os que estão no Transporte porque eles correm para a Saúde. É preciso atenção, vigilância constante; esses insetos são ávidos pelos recursos públicos, especialistas em atacá-los sem que sejam notados, comem tudo, não deixam nada. Expertos, usam todos os meios para acessar os pontos de interesse, se valem de canais de proteção, são loucos pela celulose existente no papel moeda. Mesmo com a localização de uma colônia não se pode cantar vitória, trata-se de praga resistente e disseminada. Não fossem as gravatas diria que são vermes.

P.T.Juvenal Santos – ptjsantos@bol.com.br

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Comemorações do 25 de Abril em Penacova: homenagem aos autarcas eleitos em 1976

O Município de Penacova vai, amanhã, homenagear, na Sessão Comemorativa do 25 de Abril, os autarcas eleitos em 12 de Dezembro de 1976. Faz agora quarenta anos, estes homens e mulheres davam os primeiros passos na concretização dos Programas Eleitorais.
25 de Abril e Poder Local Democrático
[composição de capa de folheto de 76]
Consultando a imprensa local da época, é ao Notícias de Penacova, na altura tendo como director o Padre Manuel Alves Maduro, que vamos recorrer para trazer à memória dos penacovenses os nomes dos autarcas eleitos. Não dispomos de dados relativos a S. Paio do Mondego, além do nome de José Arménio Castanheira Cunha, e de Paradela da Cortiça, onde presidiu Joaquim da Fonseca Almeida. S. Paio (e cremos que também Paradela) não constarão do Notícias de Penacova por terem Plenário de Cidadãos Eleitores e não Assembleia de Freguesia. Seria necessário consultar o Arquivo Municipal, tarefa que não nos foi possível, de momento, levar a cabo. Do facto pedimos desculpa aos nossos leitores, bem como às pessoas (ou seus familiares) que naquele tempo se dedicaram à causa pública naquelas duas freguesias. Mais do que içar bandeiras e lutas partidárias (sem esquecer o importante papel dos Partidos Políticos), pretendemos com este apontamento homenagear e recordar o nome daqueles que foram eleitos, tomaram posse  e exerceram os seus mandatos, dignificando a Democracia e servindo a sua terra.

Notícias de Penacova, 7 de Janeiro de 1977

Resultados para a Assembleia Municipal e para a Câmara Municipal
Vejamos então as listas de candidatos eleitos para os órgãos do município:



Para os Órgãos da Freguesia foram eleitos:

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Apontamento bibliográfico acerca do topónimo "Penacova"

Vem este apontamento a propósito da referência que no site do Município, reformulado recentemente, é feita, no contexto da História da vila e do concelho, ao sentido e à origem do topónimo Penacova.
Perante uma referência bibliográfica demasiado vaga, [Barbosa, in Secco 1853:110] a curiosidade levou-nos a confirmar, apesar de já conhecermos a obra de Henriques Seco (ver imagem 2). De facto, na página 110, em nota de rodapé consta " J. S. Barbosa, Epítome Lusitanae Historiae, cap.1" Trata-se de uma obra publicada em Coimbra em 1805. O texto que Henriques Seco cita, encontrar-se-á, mais concretamente,  na obra existente na Biblioteca Nacional de Portugal "Epitome Universae Historiae, et Lusitanae".

Imagem 2
Fica a síntese biográfica destes dois autores:

ANTÓNIO LUÍS DE SOUSA HENRIQUES SECO nasceu em Antuzede em 1822 e morreu na cidade de Coimbra em 1892. Matriculado na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1836, aí se licenciou  e doutorou em 1843. Alcançou a Cátedra em 1861, passando a reger a cadeira de Direito Penal, da qual se ocuparia até se jubilar, em 1885. Entre outras obras publicou, em 1853,  " Memoria historico-chorographica dos diversos concelhos do districto administrativo de Coimbra" onde dedica algumas páginas ao concelho de Penacova. Nesta obra aparece ainda o concelho de Farinha Podre, que pouco tempo depois acabaria por ser extinto.

JERÓNIMO SOARES BARBOSA, nasceu em 1737, estudou no Seminário Episcopal de Coimbra, fundado pelo bispo D. Miguel da Anunciação e formou-se em Direito Canónico. Foi sócio da Academia Real de Ciências de Lisboa, catedrático de Retórica e Poética no Colégio das Artes e teve como função a inspecção das escolas de Primeiras Letras e de Língua Latina, em Coimbra. Além disso, foi deputado e dirigiu edições de clássicos para escolas. Morreu em 1815. Publicou, entre muitas outras obras, "Epitome Universae et Lusitanae".



sábado, 15 de abril de 2017

Memórias do Enterro do Bacalhau: o "Rabo+R+Rio" de 1911


Sobre o Enterro do Bacalhau de 1910 já escrevemos no Penacova Actual. Também de 1932 se conhecia uma fotografia, bem como algumas referências dispersas. Entretanto, ainda não há muito tempo, conseguimos ter nas mãos um exemplar do “programa” que veio a público nesse ano.

Não menos interessante e valioso é também o “jornal” que se publicou em Penacova aquando do Enterro do Bacalhau de 1911. Falamos de  “A ESPINHA”: uma preciosidade que tivemos a sorte de fotografar. Quatro páginas cheias de humor e sarcasmo, como convinha nesta manifestação popular que marcava o fim da Quaresma.

Proibida durante o regime de Salazar, a tradição foi retomada com o 25 de Abril nalguns pontos do país. Em Penacova o último cortejo terá sido mesmo o de 1932.  


Mas viajemos um pouco até 1911. O programa do “Rabo+r+rio” (em rodapé do folheto aparece a solução da charada) prevê para as oito da noite o início do “luzido” e “pyramidal” cortejo. Dois arautos anunciarão das suas “sonorosas” trombetas, o “passamento” daquele que em vida se chamou Bacalhau.

Como se consegue ainda ler no já carcomido papel, o relato do “funeral” é um texto pleno de humor e sátira. As restantes páginas traduzem também a fértil e mordaz imaginação dos seus “redactores”, num momento, não nos esqueçamos, em que estava ainda fresca a revolução do 5 de Outubro, e se vivia um misto de alguma liberdade de expressão e de luta religiosa. Confrontando o relato do Cortejo de 1910 (ainda na vigência da Monarquia) com o conteúdo deste panfleto, é notório o tom mais solto da sátira e da crítica social.

O tema merecia maior desenvolvimento. Por hoje deixamos os leitores do Penacova Online com este breve apontamento, prometendo voltar ao assunto.

Nota: Gostaríamos de deixar um agradecimento ao nosso amigo Sr. José Alberto Costa que nos facultou o acesso a estes valiosos documentos que com grande sensibilidade cultural e cívica sabe preservar 

Ler +:

CORTEJO DE 1910: http://www.penacovactual.pt/2013/03/penacova-enterrou-o-bacalhau-uma.html
CORTEJO DE 1932http://www.penacovactual.pt/2012/02/o-enterro-do-bacalhau.html

domingo, 9 de abril de 2017

XIV Capítulo da Confraria da Lampreia mostrou vitalidade do movimento confrádico e vestiu de festa as ruas de Penacova




Realizou-se ontem, em Penacova, o XIV Capítulo da Confraria da Lampreia, com a presença de 33 Confrarias, vindas dos mais diversos pontos do País. Depois da recepção oficial na Câmara Municipal foi servido o pequeno almoço na Pérgula Raul Lino. O tradicional desfile iniciou-se no Mirante Emídio da Silva, terminando no Largo Alberto Leitão. Ao longo do percurso, as varandas estavam engalanadas com as tradicionais colchas. Ao som da Filarmónica, os aplausos foram também traduzidos pelo lançamento de pétalas e papelinhos coloridos, conferindo um ambiente de festa (que na realidade existiu) à vila de Penacova.

A Cerimónia de Entronização de Novos Confrades decorreu, de imediato, no Auditório do Centro Cultural, na Eirinha. Na sequência dos propósitos definidos pela actual Direcção no sentido de convidar “novos Confrades Amigos” nomeadamente, as Juntas de Freguesia ribeirinhas, foram entronizados, em representação das Juntas de Freguesia de Friúmes/Paradela da Cortiça, Oliveira do Mondego/Travanca do Mondego e Lorvão, António Fernandes, Anabela Santos e Mário Escada, respectivamente. Enquanto Confrades-Empresa, António Dias / Hotel Rural Quinta da Conchada e Maria Ducelina Batista / Restaurante O Cortiço. Foram ainda entronizados mais seis novos Confrades: Graça Maria da Cunha Gonçalves (Professora), Mário Filipe Maia Lopes (Chefe de Cozinha), Maria de Lurdes Amaral Simões (Professora), Pedro Centeno de Sande Ribeiro (Designer), Pedro Raposo de Almeida (Biólogo), Sandra Ralha Silva (Professora) e Rosa Teresa Amante (Oficial de Justiça). 

A “Oração de Sapiência” foi proferida pelo Dr. Bernardo Quintela e Drª Catarina Mateus subordinada ao tema “Duas décadas dedicadas à Conservação e Gestão das Lampreias no rio Mondego”.(1)

A mesa da sessão de encerramento foi constituída pelo Mordomo-Mor da Confraria da Lampreia de Penacova, Luís Pais Amante, pelo Presidente da Associação das Confrarias da Rota de Cister, João Oliveira e pela Presidente da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas, Olga Cavaleiro. Usando da palavra, esta dirigente salientou a vertente do convívio entre as pessoas e a importância do “saber fazer”, da “tradição”, alertando também para a necessidade de reflectir sobre a origem dos produtos e das matérias primas, de pensar na preservação das espécies, de acrescentar conhecimento e perceber o que está para além da “tradição à mesa”. Por sua vez, João Oliveira, apelou à adesão de outras Confrarias que por algum motivo tenham afinidades com Espaços e Sítios Cistercienses. Recorde-se que a Associação das Confrarias da Rota de Cister, foi fundada em 2006 por iniciativa das Confrarias das Almas Santas da Areosa e do Leitão, Confraria Gastronómica da Raça Arouquesa e Confraria da Lampreia de Penacova, tendo aderido, posteriormente, a Confraria dos Gastrónomos do Algarve e Confraria Gastronómica da Região de Lafões. 

No uso da palavra, Luís Pais Amante, começou por endereçar um abraço ao “primeiro afilhado” da Confraria da Lampreia, António Matos Cristóvão, presente na sala, da Nobre Confraria do Melhor Peixe do Mundo, ainda em fase de constituição, desejando-lhe felicidades no trabalho que tem pela frente.

Uma segunda palavra, de “muita amizade e carinho” foi para os novos confrades, afirmando que “É com enorme prazer que a Direcção da Confraria da Lampreia recebe esta lufada de ar fresco “. Recordou-lhes: “Vão ter pela frente trabalho árduo - é para isso que servem as associações – mas estou convicto que esse trabalho vai ser gratificado no dia em que virem os vossos conterrâneos a olhar para vós e baterem palmas quando passarem, tal como o fizeram hoje com muita nobreza a partir das suas janelas”. E acrescentou: “Parabéns pela entrada e sucesso no futuro. A confraria será naturalmente mais para vós do que para nós.” 

De seguida, agradeceu “a toda a gente que fez o favor de vir à nossa terra”, e pedindo “desculpa - como se costuma fazer aqui na Beira - pela inexperiência numa tarefa tão grande como é um Capítulo desta envergadura”, dado tratar-se de uma direcção que tem apenas três meses de exercício. “Direcção, que tive o privilegio de escolher” e que já “ provou que é constituída por pessoas de uma garra inexcedível, pessoas que nas suas profissões já mostraram praticamente tudo o que tinham a mostrar”- reforçou. 

Reafirmou de seguida que “a Confraria vai até onde nós quisermos que ela vá” e nesse sentido a sua estratégia tem como primeiro objectivo: “Penacova, Penacova, Penacova”. “Isto que fique muito claro. Não faz sentido dizer que somos uma Confraria de âmbito nacional quando nos esquecemos da nossa terra. Vamos fazer ao contrário em termos estratégicos. Vamos, primeiro posicionarmo-nos na nossa terra, de seguida evoluir na nossa terra, e depois, sim, da nossa terra partir para o resto do nosso país.” – explicitou.

Recordou ainda uma máxima da direcção:”Fazer diferente não é fazer contra ninguém”. E nesse sentido acrescentou: “Vamos continuar a querer fazer diferente para enaltecer a nossa terra, e enaltecendo a nossa terra transmitir os valores que os nossos antepassados nos deixaram e tentar com modéstia, mas com firmeza, levar o nome da nossa Confraria e o nome dos nossos produtos endógenos a todo o País”.

Dirigindo-se à Presidente da Confederação, afirmou que “o movimento confrádico pode saber que tem aqui um grupo de Beirões frontais e leais” que quando dizem presente é porque sabem que podem dizer que estão cá. “Nunca mais ninguém vai ouvir dizer pelo menos através dos seus órgãos, que é uma Confraria muito importante. E que depois, se começa a tentar perceber onde é que está e não se encontra em lado nenhum. Onde dissermos que estamos, nós estaremos. Com firmeza, com dedicação e com lealdade.” – fez questão de reafirmar.

Chamou de seguida ao palco os titulares dos órgãos sociais da Confraria dizendo: “Tenho o grande privilégio e orgulho de dizer que eu, Mordomo-Mor, não sou uma pessoa sozinha na minha terra, porque tenho aqui um grupo de pessoas que sabem que as questões da nossa Confraria se discutem nos órgãos próprios e as decisões que tomamos são decisões para levar a bom porto, por toda a gente, a partir do momento que são decididas”. Salientou ainda a existência de pelouros e de comissões de especialidade. Nesse sentido, referiu que se deve precisamente a uma dessa comissões, constituída por Fábio Nogueira, Vítor Seco e Manuel Nogueira a organização do presente Capítulo. 

Reconhecendo que o movimento confrádico está a atravessar uma certa crise, afirmou que está convicto que em Penacova essa crise está ultrapassada. 

Disse a terminar: “Criámos um grupo de gente de muito valor que vai ser, naturalmente, capaz de levar a bom porto os objectivos da nossa Confraria. Por mim farei aquilo que prometi no dia em que me propuseram para ser eleito: cumprir este mandato - fazendo aquilo que fiz ao longo de 40 anos - criar uma equipa capaz de, com juventude, determinação e muito respeito pelas pessoas e pelo trabalho alheio, continuar aquilo que os fundadores da nossa confraria fizeram. Muito obrigado a todos!”

Ainda antes de ser encerrada  a sessão, o Confrade António Ferreira interpretou o tema de Zeca Afonso “Traz outro amigo também”. 

A comitiva dirigiu-se de seguida para o Hotel Rural Quinta da Conchada, em Travanca do Mondego, junto à Barragem da Aguieira, onde foi servido o “Arroz de Lampreia à Moda de Penacova” a cerca de duzentas pessoas, que fizeram jus a um dos grandes objectivos do movimento confrádico: o convívio e a confraternização genuína entre pessoas, a partilha da mesa e o valor da amizade.

(1) Dado o interesse e a actualidade deste tema o Penacova Online fará oportunamente uma síntese dos conteúdos abordados.